sábado, 18 de agosto de 2007

Trevisaniana


Joaquina é bonita e. Não pode ser modelo. Para parecer média se equilibra em plataformas 12. Com medo de ser diferente não olha mais para panturrilhas quando desce escada rolante. Mas gosta sobretudo das discretas que se relevam logo após a bainha da longuete solta.

Joaquina sabe o que é longuete porque ganhou um glossário de moda da Cati.

Cati apanha do marido. Dizem que ela gosta por que não sai de casa, oras? Ela grita para dentro que não agüenta mais, que o canalha já passou dos limites, imagine, jogar o prato de espaguete na parede só porque meu celular tocou e era Gutiérrez, meu cabeleireiro colombiano, ah, tenha santa paciência. Odeio quando ele vem à noite e me vira sem eu ainda estar completamente acordada e me enfia aquela coisa esponjosa e úmida no meio das pernas, assim, por trás como se eu fosse uma cadela. Ela grita enquanto diz
– Desculpe, Jair, isso não vai mais acontecer...

Cati faz Corte e Costura porque é coisa de mulher prendada. Sonha com nós especiais, principalmente os de forca. Acha estranho.

Joaquina e Cati resolveram mudar. Cati tem pernas lindas. Panturrilhas elegantes e pretas. Joaquina disse que seu pai é açougueiro, quem sabe...

No frigorífico do Seu Arnoldo tem um freezer cadeado.

Joaquina e Cati adotaram um filho. Ele se chama Almodóvar.

Ouça: Changes, David Bowie

Vanessa Samsa, que após uma noite de sonhos perturbados acordou em sua cama metamorfoseada em uma cabulosa salamandra.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Vinícius: Lado B




De repente da separação fez-se o encontro
Veio o riso depois do pranto
Da calma fez-se o vento
Paixão sem impedimento.
De repente de triste ficou amante
O sozinho fez-se contente
Bem próximo ficou o distante.
De repente, não mais que de repente.


Aliane Kanso

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

FIQUEI BEGE


Cristina, 55 anos, dona de casa, bem casada, dois filhos crescidos, avó de uma neta de três anos, rica e feliz. Apesar de tudo isso, tem algo em sua vida que incomoda os outros:sua obsessão pela cor bege. Tudo que a cerca tem este tom. Às vezes ela abre uma exceção, mas sempre para as cores clarinhas ou os tons pastéis.
Roupas? Sempre bege, ora bolas. Imagina se ela um dia, se quer pensou que o vermelho, por exemplo, pode valorizar a sua pele alva. Lingeries? Beges, é claro.
Tudo na vida de dona Cristina é assim. Ela não se permite novidades, mudanças, experimentos, é resistente. O medo do desconhecido lhe deixa apavorada. Desafios nunca são bem vindos. E mudanças não deixam de ser desafios. Então ela acha mais fácil ficar na rotina. Agora, esta obsessão pela cor bege, só ela pode explicar. Vai ver que realmente combina com ela.
Uma vez, sua ex-nora, lhe deu um vaso de lindas flores artificiais rosas. Aos poucos, para que a moça não percebesse, Cristina foi trocando-as pela sua cor predileta.
Mas não é só ela que é assim. Pelo jeito, o marido e a filha já foram “contaminados”. Ele porque não usa terno preto nunca, só bege, cores claras,
ou cinza bem claro, e a filha porque está ficando igual à mãe. Herdou dela a obsessão e a compulsão por essa cor, pois quando casou, decorou todo o seu apartamento de bege e dourado,com a ajuda da mãe, é claro. Naquela casa, só o filho escapou, ele sim, usa roupas coloridas e quase tudo que o cerca é colorido, até demais para o desgosto de sua mãe, o que a faz gostar mais e mais do bege. Aliás, ela sofreu demais quando um dia, o filho resolveu usar camisetas de cores fortes e vibrantes e óculos coloridos. Aí houve uma mudança, já que Cristina emagreceu muito, de tanto sofrimento, vai entender...
Ah, mas de uma coisa ela gostou. Em uma viagem para uma cidadezinha de Santa Catarina, se apaixonou literalmente pela frota policial, sim, lá todo o carro é bege. Na casa dela, nem o tradicional uniforme da empregada muda, a moça coitada, teve que entrar na “dança”, calça bege, sapato, e meia três-quartos também. Só a camiseta que é branca, não por falta de procurar por uma bege, mas porque dona Cristina realmente não a encontrou.
Nem os objetos e coisinhas do dia-a-dia escapam de Cristina, desde os seus três telefones em tons diferenciados de bege, até os potes de margarina, que ela reveste com papel contact, bege também.
Resumindo. O mundo de Cristina é bege,fortes emoções não fazem parte da sua vida. Ela gosta de viver assim. Então, que seja feliz. Cada um sabe o que faz. E nesta sua obsessão, faz suas pequenas mudanças, mesmo que estas, passem desapercebidas aos olhos dos outros.

Camila Age - que já está ficando bege depois deste texto.



quarta-feira, 15 de agosto de 2007

La dolce Vita




Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?”

Assim falou Zaratrusta - Friedrich Nietzsche



Francisca João Teixeira da Silva. 32 anos. Discreta, quase insignificante. Casada. Sem filhos. Fiel da Igreja da Cruz Erguida para o Bem das Almas. Trabalha, desde os 14 anos, como secretária da prefeitura de Guarujá-Mirim, cidade onde nasceu e nunca saiu. Seu maior lazer e diversão: ler entrevistas sobre pessoas que salvam - ora um médico da Cruz Vermelha, ora um pastor que serve sopa nas madrugadas frias de alguma capital distante. “Isso sim é vida”, pensa. Reclamar da vida seria até pecado, afinal, tem um bom marido, um trabalho e uma casa pra morar. O que mais ela poderia querer?

Dia desses, o novo prefeito, homem de visão, aconselhou Francisca a estudar na capital, fazer faculdade. Era inteligente demais para aquele fim de mundo. Foi o maior elogio que ela recebeu na vida. Saiu mais cedo do trabalho, chegou em casa e pegou o marido transando com sua prima no sofá. Eles nem notaram sua presença.

Francisca, em silêncio, foi para o quarto. Na pequena mala colocou três vestidos, um casaco de lã e um par de sapatos. Pegou suas economias e saiu pela janela, não queria ser vista. Na rodoviária comprou uma passagem para o Rio de Janeiro. No banco duro, enquanto esperava o ônibus, ela suspirou e sorriu. Seus únicos planos: conhecer o mar e estudar enfermagem.



Mônica Wojciechowski

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Tudo muda o tempo todo...


Inclusive a minha visão sobre as segundas-feiras...
Hoje parecia ser uma segunda como outra qualquer... Digo outra qualquer porque todos sabem o que significa segunda-feira. É o segundo dia da semana, seguindo o domingo e precedendo a terça-feira. Culturalmente falando, é considerado o dia mais chato, o mais tedioso, pois ainda teremos cinco ou seis dias para trabalhar, dependendo do grau de escolaridade. Quem estudou mais, trabalha menos e quem estudou menos trabalha até no domingo. Segunda-feira é ainda o dia que vem depois de um final de semana, normalmente, intenso. As pessoas diriam que gostariam muito que esse dia começasse após o meio-dia, e que a sexta-feira terminasse às doze horas...
Mas hoje eu descobri que a minha segunda-feira não é em nada parecida com esses conceitos. Descobri que nas religiões pagãs antigas, o dia era dedicado a lua, por isso até hoje é chamado Lunes em espanhol, de Monday (moon day) em inglês e Montag em alemão. E lua me faz lembrar natureza... Hoje a segunda-feira foi atípica, uma conversa animada com os amigos na hora do almoço, regada a cerveja (já comecei bem), uma tarde que foi até às dezessete horas (e eu não sou funcionária pública), uma mudança de endereço... e um final de tarde regado a muitas gargalhadas e um brinde... Viva a segunda-feira... Segunda-feira para mim hoje é dedicada à lua, aos amigos, às mudanças...
E ao mudar meu olhar sobre a segunda-feira, mudo olhar sobre o resto das coisas... Tudo é uma questão de ponto de vista...


Dilka

domingo, 12 de agosto de 2007

MUDAR É PRECISO

Todo dia é dia de mudança. Não importa o quê. Nem como. "Mude! Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade." (Edson Marques) Olhe para os lados, para cima, para baixo. Veja o mundo com outros olhos, outras perspectivas. Crie novas expectativas. Tenha medo. Mas mude. Lembre-se de que estamos neste mundo apenas de passagem e temos que aproveitar as oportunidades. Liberte-se! Seja criativo. Experimente coisas novas. Novos sabores. Novas cores. Novas texturas. Novos amores. Se não gostar, mude de novo. Se gostar, experimente outra vez. Mas Mude. Erre. Aprenda. Concerte. Acerte. Pegue novos caminhos. Descubra novas estradas. Crie novos horizontes. Conheça outros continentes. Viva. Troque novamente. Sinta. Acredite. Sonhe. Descubra coisas melhores. Conheça coisas piores. Chore. Aproveite a mudança. Sofra. Alegre-se. Cresça com a mudança. Mude com o crescimento. Evolua. Mudar é preciso. Nos tira da mesmice. Do comodismo. Da chatice do cotidiano. Alimenta a alma. Cria novas oportunidades, novos desafios. Agita nossa vida. Aumenta nossos limites. Nos deixa mais próximos do caminho da felicidade.


"Um belo dia resolvi mudar E fazer tudo o que eu queria fazer Me libertei daquela vida vulgar Que eu levava estando junto à você E em tudo o que eu faço Existe um porquê Eu sei que eu nasci Sei que eu nasci pra saber E fui andando sem pensar em voltar E sem ligar pro que me aconteceu Um belo dia vou lhe telefonar Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu No ar que eu respiro Eu sinto prazer De ser quem eu sou De estar onde estou Agora só falta você" Rita Lee

by Carlota Joaquina

Dedicação especial: Clarisse Lispector

Dedicado as pessoas especiais que tiveram grandes mudanças em suas vidas nos últimos tempos: Francine – Novos Desafios Profissionais; Rodrigo Pitingo – Novos desafios profissionais; Mônica – Em busca de seu sonho; Ana Teresa – Uma nova mamãe; Viviane Sandri – Empresária e mamãe; Eduardo Aguiar – Papai fresco; Andréia Vieira – Dedicação a si mesma; Vanessa – Novos desafios Profissionais; Marquinhos – Casa nova, cidade nova, emprego novo, amigos novos; Patrícia Zanon- Novo estado civil; Patrícia e Modelo – Papais frescos; Giovana – Nova cidade, novo emprego, novo amor. Se não incluí alguém, me perdoem, são tantas pessoas, com tantas mudanças...
TEMA DA SEMANA: MUDANÇA





EU SOU A MOSCA QUE POUSOU EM SUA SOPA




Sou eu, a mosca no seu quarto a zumbizar.
Eu te faço derrubar o copo de chopp de cima da mesa direto pro chão encerado do bar, ir juntar os cacos e se cortar, e no fim das contas, se julgar desastrada, quando, na verdade, a culpa era toda minha.

Eu fui a verdadeira responsável por aquele embrulho no estômago que você sentiu no domingo passado, logo depois de almoçar a deliciosa lasanha de frango da sua vovó – não foi a lasanha da veia não, fui eu.

Eu te fiz querer o divórcio do seu marido antes mesmo de se casar com ele, já que você definiu que ele seria um péssimo pai pros seus futuros filhos, antes mesmo de descobrir se ele seria ou não um bom companheiro pra você.

Fui eu que te motivei a comprar um creme anti-idade aos 25 anos, uma vez que o sol dos próximos 15 deverá-talvez-quem sabe ser muito mais agressivo que esse que bronzeia hoje a sua pele alva.

Eu que te faço deitar na cama ao lado do seu celular, enquanto canta o mantra do “liga, liga, liga logo”, mesmo que seja um tanto óbvio que ele vai te ligar.

Eu que te fiz arrumar facinho, facinho aquele emprego bacaninha que você tanto queria, porque te fiz ser espontânea e tagarela diante do seu chefe que, encantado, te contratou.

Sou quem te faz pensar em umas 35 conseqüências terríveis de um ato que você ainda nem ousou cometer – e que, se continuar com o cálculo das tragédias, jamais cometerá.

Eu te fiz trocar os pés pelas mãos ao ter falado uma grande bobagem, bem quando você mais precisava ter sido assertiva.

Sou eu que faço você sonhar com os maiores e melhores absurdos, justo no momento em que você deve, simplesmente, viver aquela realidade simples que está ali, bem na sua frente.

Eu sou a culpada por você pensar demais e agir de menos, mas também sou a responsável por você, em outros momentos, pensar de menos e já sair falando e fazendo tudo o que te vem à mente.

E mais do que tudo isso, eu sou o rótulo que você vai levar impresso na sua testa pelo resto da sua vida... qualquer copo que você quebrar, dúvida boba que você tiver, telefonema óbvio que você esperar, grito desnecessário que você der, paciência que te faltar, pressa que você tiver, vão te dizer que a culpa é minha.

Eu sou o seu brilho e seu bolor, sua vitória e sua ruína, seu maior defeito e sua maior qualidade: A SUA ANSIEDADE.


Sassá.